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Sugerimos vivamente às pessoas interessadas neste tema lerem este magnífico livro. Os autores recolhereram informação na Torre do Tombo em Lisboa nos arquivos da PIDE por isso, o que nele está descrito acerca do 4 e 11 de Fevereiro bem como do 15 de Março de 1961 é absolutamente fiável contrariando o que foi escrito por alguns pseudo-escritores. Como o livro tem copyrigth e dado seu conteúdo polémico para alguns angolanos de alta patente dificilmente poderá ser vendido em Angola. Assim, solicitamos a condescendência dos autores e da editora pela publicação deste texto o que desde já agradecemos.

Os "heróis" do 4 e 11 de Fevereiro


Monumento aos heróis do 4 de Fevereiro em Luanda

A versão de Manuel Pedro Pacavira: uma acção do MPLA

Manuel Pedro Pacavira é o autor de um livro intitulado O 4 de Fevereiro pelos Próprios. Não se sabe muito bem quem são «os próprios», pois não se indicam fontes nem bibliografia. E Pacavira não podia participar, pois estava preso. Entretanto, o objectivo do livro ressalta com clareza desde as primeiras páginas: trata-se de atribuir o 4 de Fevereiro ao MPLA, ocultando o papel de outros. A questão é que, sem provas do que afirma e com tanta incorrecção, acaba por deixar o MPLA em maus lençóis. Sendo caso para dizer que, em vez de ajudar, prejudicou.

O autor

Manuel Pedro Pacavira é personalidade controversa. Empregado comercial, integrou o chamado «Grupo dos 36», detido pela PIDE sob a acusação de pertencer à direcção do MPLA em Luanda. Quando se deu o 4 de Fevereiro, estava preso na Cadeia de S. Paulo, donde será transferido para o Campo de Missombo. Em 1966, um chefe de brigada da PIDE escreve: «O Pacavira já por diversas vezes tem vindo, voluntariamente, relatar ao signatário alguns assuntos de carácter político, que têm sido objecto de averiguações, após necessária informação.» E em Junho de 1966, o inspector-adjunto Filipe Reis Teixeira, o segundo homem da PIDE em Angola, assinala que Pacavira se oferecera para colaborar com a polícia.

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Manuel Pedro Pacavira

Facto é que, num auto que assinou, Manuel Pedro Pacavira declara achar-se «totalmente regenerado, com arrependimento sincero e completo, de todos os seus erros», oferecendo à PIDE «toda a sua colaboração, estando pronto a obedecer, leal e cegamente, a tudo o que lhe for ordenado». Para provar essa lealdade, afirma não se importar «de falar em público contra as organizações subversivas que lutam pela independência de Angola». E até «gostaria de redigir e fazer publicar, sob a sua autenticidade, artigos de carácter patriótico, em repulsa das falsas promessas dos pretensos libertadores de Angola». Está, pois, explicado o seu papel como fundador e colaborador da Tribuna dos Muceques, um jornal da PIDE, concebido pelo seu director, São José Lopes.

Em 1974, segundo informação militar, Cândido Fernandes da Costa e Bernardo Silas teriam desmascarado Manuel Pedro Pacavira perante Agostinho Neto e Joaquim Pinto de Andrade, acusando-o de «traidor» e de «agente duplo» ao serviço dos portugueses, desde os tempos em que estivera detido no Campo do Missombo. A acusação não terá consequências. Pacavira irá mesmo atingir os mais altos cargos do Estado e do Partido. Membro do Comité Central e da Comissão Política do MPLA, será ministro, governador e embaixador de Angola. No entanto, membros destacados do MPLA atribuem-lhe comportamentos negativos. E o primeiro embaixador de Angola em Portugal vai ao ponto de o responsabilizar pela morte de um dos chefes do levantamento do 4 de Fevereiro. Escreveu Adriano Sebastião:

«Sobre Manuel Pedro Pacavira [...] pesa ainda uma nota quanto a mim negativa, quando ele se esqueceu do acto de um companheiro que, no Missombo, sacrificou a vida em seu benefício [...]. Trata-se de Virgílio Francisco Sotto Mayor, fuzilado no Campo da Revolução por um crime de que não foi autor», num processo que teria sido conduzido, em 1976, pelo próprio Pacavira. «Os mortos já não falam», conclui o antigo embaixador, recentemente falecido. Mas Pacavira não se fica por aqui. Proclamada a independência, terá sido o primeiro a denunciar a existência de uma «conjura nitista» no seio do MPLA. De resto, cultiva, com particular desvelo, a adulação dos chefes. Em 1993, fazia questão de salientar a activa participação de Eduardo dos Santos na luta que se travara, no princípio dos anos 60, pois fazia a ligação entre as estruturas clandestinas do Sambizanga e do Rangel. E em 2006 publicava a obra José Eduardo dos Santos - Uma Vida Dedicada à Pátria.

Já antes e em relação a Agostinho Neto, Pacavira tivera o cuidado de assinalar que este não só não reprovava «o carácter obscurantista do movimento» do 4 de Fevereiro, isto é, as práticas de feitiçaria e magia negra, como até se tinha rido, «com aquele seu riso de fina ironia».

O livro sobre o 4 de Fevereiro

Nas tais «práticas obscurantistas» figuraria, por exemplo, o enterrar de uma panela de barro com uma carta endereçada a Patrice Lumumba, carta que, como veremos, de facto não era dirigida a Lumumba. E segundo Pacavira, a ligação do quimbandeiro Augusto ao Congo ter-se-ia resumido à busca de «poderes mágicos mais fortes». Por seu lado, a rainha Engrácia Cabenha nada tinha que ver com o Augusto, limitando-se a dar apoio aos chefes. E apesar dos seus 12/13 anos, é dada como chefiando um grupo, cuja missão se desconhece. O comandante-geral da operação seria Paiva Domingos da Silva, tendo sido distribuídas responsabilidades pelos 11 membros da direcção. O cálculo do número de mobilizados para o 4 de Fevereiro atinge rara precisão. Nada menos do que 3123. Só que, com tantas deserções, os participantes acabam por ficar reduzidos a duas centenas e meia,

Estes participantes teriam jurado pela Pátria, pelo Povo e pelo MPLA, depois de uma «oração muito inspiradora» de Neves Bendinha, que, como veremos, até era da UPA. Aliás, na versão de Pacavira, em vários dos ataques os participantes deram vivas ao MPLA. Lá se referem as catanas, os gorros, as camisolas e os calções pretos, assim como a concentração no quintal de Imperial Francisco. E são também apontados os foguetes, o eucaliptal, os mortos entre guardas e civis, assim como um número exagerado de armas capturadas. Entre os objectivos da operação figuram a Casa da Reclusão, a Cadeia de S. Paulo, a 4.a Esquadra da PSP, a Companhia Indígena e o Aeroporto. Figuram, também, o Palácio do Governador e a Emissora Oficial, de que, como veremos, não se ouvirá falar. Mas não figuram os Correios que, entretanto, são referidos por participantes.

A 5 de Fevereiro, no episódio do funeral dos guardas mortos, não são os colonos que matam uns quantos angolanos, mas sim «homens negros enfurecidos» que fazem fogo com armas automáticas. Confirma, todavia, o desastre do ataque a 11 de Fevereiro, dirigido por Raul Deião. E, tal como outros, também Pacavira atribui ao cónego Manuel das Neves um papel destacado nos acontecimentos, pois fora ele que dera a ordem para atacar no dia 4 de Fevereiro. Contudo, recusa associá-lo à UPA, pois não tinha outros compromissos que não fossem a «luta pela libertação da Pátria».

Com meias verdades e muitas incorrecções e falsidades, o livro de Manuel Pedro Pacavira, embora escrito num português escorreito, envergonharia qualquer estudante de História. Merece, pois, pouco crédito.

GUERRA COLONIAL: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

Nós é que sabemos «Estivemos lá, por isso nós é que sabemos», afirmou-se num colóquio internacional sobre a História de Angola. Mas, infelizmente, certas memórias têm a estranha tendência para omitir factos, para autocensurar episódios e para adornar acontecimentos. E sendo ainda mais matreira nas raposas velhas, a memória distorce acontecimentos e opiniões com o propósito de enganar, contando factos que não sucederam ou não aconteceram exactamente assim. Afinal e como se verá, sabem pouco. Mas presumem muito. Ora, sobre os acontecimentos do 4 de Fevereiro existe abundante material na Torre do Tombo. Nos arquivos da PIDE, por exemplo, constata-se que a polícia prendeu mais de uma centena de participantes nos dias que se seguiram ao 4 de Fevereiro de 1961. Mas apenas alguns jovens se recusaram a falar e, mesmo quando acareados, desmentiram o que outros diziam. De modo que, em geral, os participantes no 4 de Fevereiro que foram presos, falaram e falaram abundantemente, só não contando mais porque não sabiam. O cruzamento destes testemunhos permitiu reconstituir o que se passou realmente nos dias 4 e 11 de Fevereiro de 1961, de modo a conhecer os objectivos, a direcção, o número de participantes, os grupos e os alvos, as «práticas obscurantistas» de que fala Pacavira, as armas e a roupa usada, o desenvolvimento dos ataques, as ligações políticas e ideológicas dos participantes e o controverso papel do cónego Manuel das Neves. Vejamos, então, o que disseram os presos sobre o 4 de Fevereiro de 1961.

Participantes e seus objectivos

Comecemos por ver quem foram os participantes no 4 de Fevereiro e que objectivos tinham em mente: Os participantes: Encontrámos mais de duas centenas de nomes. É, pois, provável que, nos dois dias da operação, que se desenrolou a 4 e, depois, a 11 de Fevereiro, tenham estado envolvidas duas centenas e meia de pessoas. Número muito longe das versões romanceadas que falam de 3125 participantes ou até, numa aparente precisão, em 3213 ou em 3123, exagero que só avolumaria o fracasso da acção. A polícia prendeu mais de uma centena de participantes, em regra no dia seguinte. A partir de tão significativa amostra, é possível tirar conclusões no que respeita à idade, local de nascimento, instrução e profissões dos participantes.

Quanto à idade: 17% têm menos de 20 anos, 59% de 20 a 30 anos, 21% de 30 a 40 anos, 2% mais de 40 anos e 1% mais de 50. Quanto ao local de nascimento: 73% são da região de Icolo Bengo, 11% de Luanda, 5% de Malange e 9% de outras terras e regiões. Quanto à instrução: 64% apenas sabiam ler e escrever (ainda que mal), 24% eram analfabetos, 7% tinham a 4.a classe, 3% a 3.a classe e 2% a l.a ou 2.* classes. Finalmente, no que respeita às profissões, l era comerciante, l não tinha profissão e alguns eram empregados. Mas a esmagadora maioria seriam operários industriais (constituindo um proletariado incipiente ou um semiproletariado, com ligações ao campo, ainda partilhando dos costumes e das crenças ancestrais dos povos bantos).

A data e os objectivos

A escolha da data de 4 de Fevereiro não foi casual. Aproveitava o facto de estarem em Luanda dezenas de jornalistas estrangeiros, à espera do navio Santa Maria, que se dizia rumar a Angola.

Mas o que queriam os participantes do 4 de Fevereiro?

O 4 de Fevereiro de 1961 tinha como objectivo imediato a libertação dos presos políticos que à data enchiam a Casa da Reclusão Militar, a cadeia da administração de S. Paulo e as instalações da então 7.a Esquadra, na Estrada de Catete. E tal objectivo estava particularmente vivo, pelo facto de correrem rumores insistentes de que os presos políticos que se encontravam na Casa da Reclusão seriam levados para fora de Angola, para o Aljube ou para o Campo de Concentração do Tarrafal, que vai ser reaberto por Adriano Moreira. De resto, há notícia de alguns dos presos pressionarem as suas visitas para que fosse desencadeada uma acção que evitasse a sua saída de Angola.

Simultaneamente, os participantes falam de outro objectivo imediato: a obtenção de armas de fogo e de munições para a luta pela independência de Angola, ou dito de outra forma, para «mostrar ao governo da Nação o desejo de independência do povo de Angola». Complementarmente, há quem apareça a falar da luta por melhores condições de vida e, também, da guerra aos brancos, isto é, de «lutar contra os brancos e expulsá-los».

Organização

Falemos, agora, dos dirigentes, dos grupos, dos sinais distintivos e das armas.

A direcção

Segundo as declarações de um destacado participante, a direcção geral do movimento era assim constituída:

O presidente e chefe-geral do movimento era Domingos Manuel Agostinho, pintor, de Malange. António Domingos Francisco, alfaiate, de Icolo Bengo, era tesoureiro e chefe de grupo. Bento António, pintor, também de Icolo Bengo, era secretário e chefe de grupo. Raul Agostinho Cristóvão ou Raul Deião, carpinteiro, ainda de Icolo Bengo, era cobrador e chefe de grupo. Integravam igualmente a direcção, sendo chefes de grupo: Virgílio Francisco Sotto Mayor, pintor de Icolo Bengo; Paiva Domingos da Silva, carpinteiro; Adão Neves Bendinha, empregado, também de Icolo Bengo; e Adão Manuel Mateus, pintor, de Catete49. Sublinhe-se o facto de seis dos oito membros da direcção serem da região de Icolo Bengo.

Os grupos

Sobre os grupos, os participantes têm duas versões: uns dizem que eram cinco, outros falam de seis. Esta é a hipótese mais plausível, pois são indicados seis alvos, cada um deles atingido por um grupo com o seu chefe e subchefe. Tais grupos são:

1. Casa da Reclusão: Bento António (e Imperial Francisco).
2. Cadeia da Administração de S. Paulo: Adão Neves Bendinha.
3. Sétima Esquadra da PSP: Domingos Manuel Agostinho (ou Costa João?).
4. Companhia Indígena: Paiva Domingos da Silva. í. Correios: Virgílio Francisco Sotto Mayo .
6. Aeroporto: Raul Deião.

Ao contrário do que escreve Pacavira, ninguém fala de um grupo da Rainha ou de um grupo de vigilância. No que se refere aos cabos, são apontados os nomes de Manuel Costa, Dias Morais e Moisés Ambrósio. Um deles seria alto, relativamente forte, com grandes entradas e aparentando ter mais de 40 anos. Usava calças compridas e camisa de caqui. Mas, à noite, estava de calções e na camisa tinha as divisas de cabo. A instrução militar ministrada pelos cabos, além da marcha normal e acelerada e do «ombro, arma», ensinara os participantes a não correrem a direito mas aos ziguezagues, a aproximarem-se silenciosamente dos alvos e a rastejarem. Os grupos não seriam uniformes, variando o número dos que os integravam de acordo com o objectivo a atingir. Em regra, tinham 22 pessoas, incluindo chefe e subchefe. Mas haveria grupos mais numerosos, lá onde era esperada maior resistência. O grupo do Aeroporto, por exemplo, teria umas 30 pessoas. Cada grupo levava consigo um foguete, cujo rebentamento daria o sinal para o início do ataque.

Armas e sinais distintivos

Os participantes entregaram 50$00 para comprar catanas, tendo muitas delas sido adquiridas no comerciante Cadavez. Alguns levavam armas de fogo, tendo feito uso delas no ataque à cadeia de S. Paulo. Armas de fogo, catanas e facas foram metidas em três sacos, enterrados no quintal da casa de Imperial Francisco. Mas além das armas de fogo e das catanas e facas, um dos participantes levou um «tubo de borracha» e outro um ferro. Fora dada indicação aos participantes para que levassem roupa escura. E pediram-lhes dinheiro para uma boina azul ou preta, que foi distribuída na noite do ataque. Tinham sido compradas pelos chefes de grupo, tendo os participantes dado por elas 7$50 ou 10$00.

feitiçaria

Os participantes falam de nada menos do que três feiticeiros, tendo o último um papel central na chamada «preparação» dos participantes.

O primeiro feiticeiro

Em Janeiro, Domingos Manuel António, o chefe-geral, mandou que Raul Deião fosse arranjar um feitiço que impedisse facas e balas de entrarem no corpo dos combatentes. Deião, acompanhado de Adão Manuel Mateus, apanhou um comboio com destino a Cachar. Aqui chegados caminharam até ao rio Cuanza, atravessando para a outra margem numa canoa. Foram até Quissame, onde chegaram três dias depois de terem saído de Luanda.

Procuraram, então, por um quimbandeiro (ou feiticeiro), que foram descobrir na sanzala de Karinde e que era, nem mais nem menos, que o soba Kanvunge. Deram-lhe 550$00 para que fizesse um feitiço que impedisse balas e facas de penetrarem no corpo. O quimbandeiro fez o que lhe pediam, mas advertiu para o facto de o feitiço só dar resultado se não fossem eles a provocar o adversário. Não era bem o que queriam, mas, à falta de melhor, pediram-lhe o feitiço.

O feiticeiro acabou por lhes dar um pó branco e recomendou que comprassem um pano também branco, o cortassem em tiras e as passassem pelo dito pó, colocando-as depois na cintura dos combatentes. Dias depois, já em Luanda, numa reunião preparatória realizada em casa de Raul Deião, este feitiço foi dado a cerca de 60 combatentes.

O segundo feiticeiro

No dia 25 de Janeiro, mais uma vez em casa de Raul Deião, realizou-se nova reunião, desta vez só com os chefes. Deliberaram voltar a mandar Deião ao mato à procura de novo feitiço contra balas e facas, pois o primeiro não dava garantias de eficácia. No dia seguinte, desta vez acompanhado por Paiva Domingos, Deião apanhou o comboio na estação dos muceques, tendo voltado a tirar bilhete para Cachar. Aqui chegados, caminharam até Sabendo Andar, onde Paiva falou com um seu amigo, um agricultor e caçador de nome Fouché, a quem pediu que chamasse o quimbandeiro Paulo Adão, que morava na sanzala de Cassoneca. Paulo Adão acabou por aparecer. Disse saber fazer aquele feitiço, mas advertiu para o facto de este só os proteger de balas e facas se não fossem eles a atacar. Apesar do inconveniente, Deião e Paiva pediram-lhe que o fizesse.

Então, o quimbandeiro arranjou capim pisado e lançou sobre ele vinho, azeite e carvão. Prontificou-se a fabricar uma maior quantidade daquele feitiço, que seria transportado dias depois pelo Fouché, que estava doente e tinha de se deslocar a Luanda para ir ao médico. E assim os chefes acabaram por tomar aquele feitiço.

O terceiro feiticeiro

A dada altura, Domingos Manuel Agostinho, o chefe-geral, apareceu a dizer que arranjara um quimbandeiro capaz de criar um feitiço ainda mais eficaz contra balas e facas, pois os protegia mesmo que fossem eles a atacar. No dia 27 de Janeiro, dirigiram-se para um local designado por Pedreiras, onde se deviam encontrar com o tal feiticeiro. Só que andaram perdidos durante duas horas e meia, pelo que resolveram voltar a Luanda.

No dia 28 de Janeiro, por volta das 20 horas, Raul Deião, acompanhado por Imperial Francisco, Bento António, Adão Manuel Mateus e Agostinho Francisco Neto, partiu para o Rangel, mais concretamente para as Pedreiras. Chegaram lá às 2h30 da madrugada de segunda-feira. E encontraram, perto de um embondeiro, um indivíduo vestido de vermelho, que tinha ao lado uma miúda de uns 13 ou 14 anos de idade, a quem designava por Rainha. Um pouco mais abaixo estava um sujeito com uma farda de caqui e divisas de cabo.

O indivíduo vestido de vermelho, pequeno e magro, era um quimbandeiro de nome Augusto, que viera de Matadi, no Congo. Vestia calças de caqui e calçava sapatos brancos de lona. Tinha entradas pronunciadas e aparentava uns 30 anos. Falava bem o português, pois vivera em Luanda até aos 11 anos de idade. Diziam-no congolês. No entanto, era sobrinho do angolano Simão Toco e dava pelo nome de Augusto.

Pelas 19h30, o Augusto estendeu no embondeiro uma bandeira vermelha com uma estrela, iluminada por velas. Disse missa, enquanto o cabo e a tal Rainha o acompanhavam nos cânticos. Ao amanhecer foram descansar. No dia 31, também pelas 19h30, o quimbandeiro, depois de ajoelhar diante da bandeira vermelha, começou a baptizar os presentes com uma pomada que trouxera num frasco e que parecia brilhantina líquida, na qual misturara uns grãos de areia retirados de sepulturas do cemitério. Fazia aos participantes uma cruz na testa e outra no peito, terminando com um aperto de mão. A seu lado, o cabo entregava a cada combatente um bocado de mandioca para mastigarem. E dava-lhes um cálice com uma beberagem de cor amarelada e sabor acre, a lembrar aguardente. Entregava, também, um pauzinho que deviam atravessar nos dentes. E ainda um cinto de pano, azul e vermelho.

Na quarta-feira, dia l de Fevereiro, a cerimónia destinava-se aos chefes. O quimbandeiro misturou o sangue de dois pombos que matara com areia do cemitério, dando uma colher a cada participante. Depois, ordenou a Neves Bendinha que metesse num envelope uma mensagem a que devia juntar 300$00, indo depois enterrar tudo no quintal. Na mensagem, que foi apreendida pela polícia, Neves Bendinha escrevera a lápis: «Irmãos do Cemitério Novo. A saída está prevista para as 2 horas da madrugada. Pedimos auxílio.» Era, pois, um apelo aos mortos enterrados no cemitério, para que ajudassem os que iam participar na operação. Entretanto, o quimbandeiro Augusto, que fora abandonado pela anterior Rainha, exigiu que lhe trouxessem uma outra jovem de 12 ou 13 anos, «virgem e sem compromissos». Raul Deião trouxe-lhe uma sobrinha que vivia em sua casa. Numa entrevista, concedida em 2010 ao semanário luandense O País e intitulada «Rainha do 4 de Fevereiro luta pela Coroa», Engrácia Cabenha, general na reserva das Forças Armadas Angolanas, declarou ser a tal sobrinha de Raul Deião. Mas, ao contrário do que afirma, nenhum dos participantes a refere como participante no assalto à Casa da Reclusão. E muito menos lhe atribui a função de chefe de grupo, como diz Pacavira.

No dia 3 de Fevereiro, os responsáveis pela operação (Domingos Manuel Agostinho, Raul Deião, Paiva Domingos, Virgílio Francisco, Adão Mateus, Bento António e Neves Bendinha) concentraram-se, por volta das 22h00, numa casa situada atrás dos Caminhos-de-Ferro, onde estavam o quimbandeiro Augusto e a Rainha. Foram, então, indicados os alvos a atacar.

Beberam colheres de sopa de um líquido. Imperial Francisco disse que todos os que bebessem «ficariam com muita força» e não haveria «ninguém capaz de os deitar abaixo». Era uma «água» tão boa, que «as armas dos brancos não fariam mal».

Feitiços no ataque de 11 de Fevereiro

No dia 9 de Fevereiro, os participantes foram levados a casa de Raul Deião, onde eram esperados pelo quimbandeiro Augusto. Beberam uma ou duas colheres de um líquido viscoso, de cor acastanhada, que parecia óleo de palma. Na sexta-feira, dia 10 de Fevereiro, por volta das 20 horas, encontraram-se na taberna de João José Bento, no muceque Rangel, para receberem um feitiço que os livraria das balas. Foram entrando em grupos de cinco. Ingeriam um copo com um líquido que sabia a aguardente e tinha uns fios que pareciam raízes. Aquecia o coração, afirmou Fernando Carvalho Domingos (o Cambuté). Outros diziam ter ficado muito excitados e com uma fúria anormal. Estavam presentes duas dezenas de pessoas, no interior e no exterior da loja.

Explicação da feitiçaria

No clássico Usos e Costumes dos Santos, o missionário Henrique Junot, antropólogo suíço que, em 1895, dirigiu uma missão de pesquisa em Moçambique, escreveu sobre estes remédios para a guerra:  « Cada um dos guerreiros é persuadido de que se tornou invulnerável e de que as balas passarão por ele ou mesmo se achatarão contra o seu corpo, caindo no chão sem lhe fazerem qualquer mal. O encanto do remédio só é quebrado se voltar as costas. Então as balas podem vará-los. Ouvi indivíduos muito inteligentes, raciocinando perfeitamente sobre todos os outros assuntos, mas que estavam absolutamente convencidos deste facto.»

As acções de 4 e 11 de fevereiro

Falemos, agora, das acções de 4 e 11 de Fevereiro de 1961.

As reuniões preparatórias

Já em Novembro de 1960, em casa de Adão Mateus, se tinha realizado uma reunião em que participaram os que seriam chefes do 4 de Fevereiro. Falaram de um plano de assaltos com a finalidade de mostrar ao governo português o desejo de independência do povo de Angola. No dia 2 de Fevereiro de 1961, pelas 20h30, realizou-se, na casa de Imperial Francisco, outra reunião. Participaram umas 70 pessoas. Decidiram comprar catanas. Bento António convidou os presentes a comparecerem, no dia seguinte, na casa de Raul Deião, ao lado da de Imperial Francisco. Esta reunião durou aproximadamente uma hora.

A reunião de 3 de Fevereiro

No dia 3 de Fevereiro, também pelas 20h30, realiza-se nova reunião na casa de Raul Deião. Mas, porque a casa era pequena, os presentes tiveram de se deslocar para a casa de Imperial Francisco, ficando uns no interior da habitação e os outros no quintal. Bento António estava acompanhado pelo quimbandeiro Augusto e pelo cabo. Foi, então, que deram a todos a tal beberagem de cor amarelada, com sabor a aguardente.

Depois, tomaram nota dos nomes dos presentes, que seriam uns 150 homens, cujos nomes foram escritos, num caderno escolar, por Paiva Domingos. Estavam presentes todos os chefes. Por volta da uma hora da madrugada de 4 de Fevereiro, autorizados por Domingos Manuel Agostinho, Neves Bendinha e um outro indivíduo, com a farda do exército português e as divisas de cabo, procederam à constituição dos grupos e à designação de chefes e subchefes. Foram dadas indicações sobre o que deviam fazer:

Esta operação terminou por volta da uma hora da madrugada de 4 de Fevereiro. Cerca das 2 horas, trouxeram os embrulhos com as armas enterradas no quintal de Imperial Francisco e começaram a distribuí-las. Só os chefes ficam com armas de fogo.

Os grupos reuniam-se no Bairro Santo (em S. Paulo), no Bairro Zangado (junto ao edifício da Companhia da Luz e Água de Luanda) e no eucaliptal. Os atacantes usavam boinas de cor preta (ou azul) até às sobrancelhas, para não serem reconhecidos. Levavam também um pauzinho que mordiam e uma catana na mão. E antes de irem para o ataque beberam um quimbombo, bebida que lhes daria ânimo e os livraria das balas.

Os ataques de 4 de Fevereiro

Há notícia dos grupos incumbidos de atacar a Casa da Reclusão, a Cadeia de S. Paulo, os Correios, a 7." Esquadra da PSP e o Aeroporto. Às duas da manhã, saiu o primeiro grupo, que ia atacar a Casa da Reclusão. Tomaram a direcção da Estrada da Brigada, caminhando em duas filas, uma de cada lado da estrada. Atravessaram a Estrada da Cuca junto ao Mercado Indígena e dirigiram-se para um caminho que dá acesso às Barrocas.

Quando desciam, apareceu um carro patrulha da PSP, que os seguiu. Esconderam-se. A viatura parou. Começaram a atirar pedras. Os ocupantes da viatura, três guardas brancos e um civil negro, saíram precipitadamente. Atacaram-nos nessa altura, matando-os com as catanas. E apoderaram-se das três pistolas dos guardas.

Encaminharam-se, depois, para a Casa da Reclusão. Tinham ordens para não falar e para não fumar. Bento António, o chefe de grupo, mandou que João Agostinho lançasse o foguete que trazia consigo. Quando este rebentou, gritou: «Viva Angola!» E deu ordem para o ataque.

A porta da Casa da Reclusão estava fechada. Dirigiram-se, pois, para o lado do Bungo, onde existia um muro baixo com um fio de arame por cima. Depararam com duas sentinelas negras, que gritaram e se puseram em fuga. Perseguiram-nas para obterem as chaves. Junto à porta de armas, estavam outras duas sentinelas, uma branca, a outra negra. Recusaram entregar as chaves. Começou, então, o tiroteio, em que foi atingido um dos atacantes e a sentinela branca. Com o barulho, os homens da guarnição acordaram e começaram aos tiros. Soaram rajadas de metralhadora. O grupo dispersou, com um morto (Adão Mateus) e dois feridos (Imperial Francisco e Francisco Bandeira).

A zona por onde tinham vindo estava cheia de polícias. Fugiram pelas Barrocas acima, indo sair junto ao Cinema Miramar. Mas os fugitivos foram descobertos e alvejados por civis, o que provocou mais feridos.

Agora sobre um segundo grupo. Saíram da casa de Imperial Francisco, José António dos Santos, Henrique dos Santos, Sebastião José e João Pedro, que se dirigiram para o eucaliptal, onde se juntaram ao seu grupo, que teria umas 30 pessoas. Dirigiram-se, depois, para o portão da cadeia da PIDE, onde bateram fortemente. Como lá dentro Um cão tivesse ladrado e o guarda não tivesse aberto a porta, seguiram para a Cadeia da Administração de S. Paulo. Tendo encontrado o portão da cadeia aberto, entraram. Mataram um guarda à catanada e deixaram um cipaio bastante ferido, com os golpes que lhe deram no pescoço e na barriga. Tentando abrir passagem para as prisões, partiram os vidros de duas portas. Nessa altura, tendo ouvido tiros e o ladrar de cães, resolveram ir embora. Voltaram a encontrar-se na casa de Henrique dos Santos, onde deixaram as catanas. Pelas 7h30, quando se dirigia para o trabalho na Companhia Congo Agrícola, José António dos Santos foi detido pela PSP.

Um terceiro grupo, chefiado por Virgílio Francisco Sotto Mayor, a quem cabia o ataque aos Correios, foi dos primeiros a sair da casa de Imperial Francisco. Fê-lo às 2 horas do dia 4 de Fevereiro, tendo chegado aos Correios às 2h45.

O grupo dos Correios terá encontrado forte resistência dos polícias que ali estavam. Afirma-se que foram surpreendidos por dois guardas da PSP, que os mandaram parar, perguntando onde iam. Como não responderam e se preparavam mesmo para os atacar, um dos guardas puxou da pistola e disparou três tiros, que atingiram Virgílio Francisco, que caiu por terra. Alguns dos atacantes terão começado a lutar com os guardas. E terão morrido dois guardas da Companhia Móvel da PSP. Pedro van Dunem, que integrava o grupo, afirma que, quando começaram a ouvir tiros, fugiram.

7.a Esquadra da PSP

Um quarto grupo teria 26 participantes e tinha por missão o assalto à 7." Esquadra da PSP, situada na Estrada de Catete, onde existia um depósito de armas e estavam detidos presos à ordem da PIDE. Alguns participantes são identificados como sendo da UPA, designadamente o escriturário Augusto António Lemos, o empregado Eduardo Sebastião da Silva, o operário João Nunes de Carvalho e o enfermeiro Pedro António Inácio. Recebidos a tiro, os atacantes tiveram 14 mortos. E retalharam com as catanas o chefe da Esquadra e um primeiro subchefe, embora os não tivessem matado.

Conta um graduado da Companhia Móvel: «Na Esquadra estava o chefe e um pelotão. Mas o armamento estava na arrecadação. E quando tocava o alarme, o pessoal ia todo para a arrecadação, para trazer o armamento.» Quando os atacantes entraram na Esquadra, já o alarme estava a tocar. De modo que os guardas começaram a alvejá-los. E com os tiros, os atacantes fugiram. O grupo destacado para o Aeroporto, onde devia incendiar os aviões, não terá realizado a operação, pois os participantes, ao ouvirem tiros, puseram-se em fuga.

Ataques de 11 de Fevereiro

Nos ataques de 11 de Fevereiro terão participado 150 pessoas, umas que já tinham integrado os grupos do dia 4, outras aliciadas à última hora na loja de João José Bento. Depois de «preparados» pelo quimbondeiro, partiram para a operação. Começaram por se concentrar nas traseiras das Oficinas Gerais do Caminho-de-Ferro, onde Raul Deião distribuiu catanas e cacetes por aqueles que não estavam armados. Os chefes tinham pistolas. Apareceu, então, um jipe vermelho, donde apontaram uma lanterna para o grupo. Os chefes dispararam sobre a viatura.

Ao que parece, a PIDE já sabia do ataque, conhecendo mesmo os alvos a atingir. E no jipe iam o chefe do posto administrativo de S. Paulo, conhecido por Poeira, e o aspirante administrativo Xavier Martins. Por volta das 20 horas, chefiados por Raul Deião, dirigiram-se para um eucaliptal existente nas traseiras da cadeia de S. Paulo. Dali partiram em dois grupos: um, chefiado por Raul Deião, atacava a Cadeia da Administração de S. Paulo e o Pavilhão Prisional da PIDE, com o propósito de libertar os presos; o outro, encabeçado por Paiva Domingos, atacava a Companhia Indígena para obter armas.

Às 23 horas foi dada a ordem para atacar. Avançaram, pois, sendo recebidos com rajadas de metralhadora e tiros de pistola. Continuaram a andar, convencidos de que as balas não entrariam nos seus corpos. Só então constataram, com espanto, que os companheiros tinham começado a cair, mortos e feridos. Gerou-se o pânico. E começaram a fugir de forma desordenada, regressando a suas casas.

Presos, feridos e mortos

Vejamos os mortos e feridos. Só no assalto à 7.* Esquadra, teria havido 14 atacantes mortos. E entre os mortos do 4 de Fevereiro destaca-se o chefe-geral Domingos Manuel Agostinho.

No 11 de Fevereiro foram muitos os mortos e feridos. Um primeiro relatório da PIDE fala de cinco guardas prisionais brancos mortos e de três gravemente feridos, assim como de 10 negros mortos (sem especificar se eram guardas ou atacantes). Contudo, números posteriores apontam para sete ou oito polícias e para 40 atacantes mortos. Entre os feridos destacam-se Imperial Francisco, Francisco Bandeira e Virgílio Francisco.

Além disso, a PIDE prendeu mais de uma centena de participantes, alguns dos quais acabaram também mortos. É o caso de Adão Neves Bendinha, de 24 anos. Em Maio de 1961, o médico Amílcar Santos Martins da Silva verificou o seu óbito, atribuindo a morte, segundo a tabela de Bertillon de 1926, a anemia por hemorragia aguda, «devendo ser sepultado a 15 de Maio de 1961, às 15 horas». Já no dia 15 de Abril, pelas mesmas causas, fora sepultado Inácio Adão. Anemia por hemorragia aguda parece significar que o espancaram e deixaram, depois, sangrar até morrer.

Adão Neves Bendinha

Mas o caso de Adão Neves Bendinha só teria a sua conclusão já depois do 25 de Abril. Com efeito, em Junho de 1974, num ofício para a PIM, o chefe do Estado-Maior General, coronel do CEM João Vieira da Rocha, afirma ter chegado ao seu conhecimento, através da senhora dona Lídia de Brito Teixeira, servente no Hospital Militar de Luanda, que seu marido, Adão Neves Bendinha, fora preso pela PIDE em Abril de 1961. Visitou-o, então, durante três semanas na cadeia da PIDE. Mas, a dada altura, disseram-lhe que já lá não estava. E no final do ano informaram-na de que falecera. Pediu uma certidão de óbito na Conservatória. Mas apenas lhe passaram uma certidão negativa, onde se dizia que nada constava.

Em Julho de 1974, a PIM (substituta da PIDE/DGS) informou que Adão Neves Bendinha fora capturado a 21 de Abril de 1961, por ter tomado parte nos acontecimentos do 4 de Fevereiro. E falecera em Maio de 1961 na Cadeia da Administração de S. Paulo.