Quinta-feira,
4 de Setembro de 2008

Campanha. Os dois principais partidos pedem a mudança. Uma ideia tão próxima como os dez quilómetros que separaram os comícios do MPLA e da UNITA, em Luanda. No mesmo dia e à mesma hora
Dois velhos inimigos na guerra aprendem a coabitar em paz
MPLA e UNITA: oferta foi diferente, mas horário dos
comícios coincidiu e entusiasmo esteve repartido.
(foto DN)
Chegou a haver confraternização entre militantes de forças rivais
HENRIQUE BOTEQUILHA, em Luanda*
Kikolo, no Cacuaco, e a fábrica da Nocal, no bairro Hoji ya Henda, são duas localidades pobres e sujas nos arredores da capital angolana. Pouco distingue uma da outra e, para se chegar a qualquer uma delas, é preciso enfrentar um trânsito apocalíptico, entre musseques sombrios. São localidades assim que tanto o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) como a UNITA (União para a Independência Total de Angola) prometem mudar na próxima legislatura e que na, mesma manhã, serviram de palco aos seus derradeiros argumentos na campanha eleitoral para as legislativas de amanhã.
Críticas da oposição
Junto à fábrica da Nocal, Isaías Samakuva, líder da UNITA, referiu-se à falta de
habitação, ao desemprego e às estradas esburacadas com que os angolanos se debatem no
seu dia-a-dia, como consequência de 33 anos de governação do MPLA, partido que tem
estado à frente do executivo desde a independência do país.
Promessas do Governo
A cerca de dez quilómetros do local, e, à mesma hora, José Eduardo dos Santos, Presidente da República e do MPLA (desde 1979), prometeu, na próxima legislatura, combater a fome e a pobreza e a melhorar o índice de desenvolvimento humano de Angola.
No comício da oposição apelou-se "ao fim do medo". Na acção de massas do partido no poder, saiu o anúncio de uma nova Constituição para "garantir as liberdades e direitos fundamentais".
Samakuva criticou a "gasosa" (corrupção), o seu adversário do MPLA referiu-se aos que "colocam os interesses particulares e pessoais acima dos interesses gerais e nacionais" e assegurou que vai "mudar os membros da equipa que estão a falhar e a prejudicar a imagem do partido, do Governo e do Estado".
Tolerância de ideias
Dois partidos, antigos inimigos nas frentes de batalha da guerra civil angolana, hoje adversários políticos que já toleram a vizinhança de ideias e comícios - tão perto como a Nocal e o Kikolo, tão próximos como os números 10 (MPLA) e 11 (UNITA que resultaram do sorteio da ordem do boletim de voto efectuado pela comissão eleitoral.
A arena de Kikolo encheu com uma multidão vestindo as cores do MPLA, que foi afluindo em largas dezenas de milhar de apelantes à medida que se aproximava a hora do discurso do "camarada presidente". Apesar de tudo, aquém dos dois milhões esperados pela organização do comício.
Uma enorme logística foi montada, com hospitais, um helicóptero de emergência pronto a descolar, e consultas grátis de clínica geral e até de ginecologia por uma equipa de mais de 50 médicos, muitos dos quais com a camisola do partido por baixo das batas brancas. E ontem Kikolo também teve um parque infantil.
Presidente nos céus
Depois, houve o aparelho de campanha: t-shirts para todos, ecrãs electrónicos, imbondeiros embrulhados em bandeiras do partido, balões em forma de zepelim elevando aos céus a imagem de José Eduardo dos Santos, concertos musicais de manhã à noite...
Do outro lado, à hora a que devia começar o comício da UNITA, apenas estavam no local cerca de duas mil pessoas sem saberem para onde olhar porque o camião-palco ainda não tinha chegado. Depois, na hora de Samakuva, aumentaram para seis mil a oito mil apoiantes, que, no fim do comício, se cruzaram com as vagas de militantes do MPLA. Sem incidentes, às vezes até confraternizando.
Jornalista da Agência Lusa*
MPLA E UNITA EM DISCURSO DIRECTO
Isaías Samakuva
Presidente da UNITA
- Que ninguém tenha medo de votar livremente, ao contrário do que eles [MPLA, partido do Governo] dizem, que podem ver em quem as pessoas estão o votar. É mentira.
José Eduardo dos Santos
Presidente do MPLA
- Para o MPLA, a mudança não é a alternância. É modificar as políticas que não deram certo, alterar a mentalidade daqueles que colocam os Interesses pessoais acima dos nacionais
José Eduardo dos Santos
Presidente do MPLA
- Temos metas precisas para alcançar nos quatro anos de Governo, mas devemos estabelecer também para cada ano metas, sobretudo do domínio pobreza
CAVACO SILVAPresidente português deseja que votação de sexta-feira decorra sem quaisquer perturbações.
O Presidente português deseja "eleições livres e justas" em Angola, referindo-se ao acto eleitoral de amanhã no maior dos países africanos de expressão portuguesa. Cavaco Silva, que falava ontem aos jornalistas que o acompanham numa visita de Estado à Polónia, evitou comentários mais específicos sobre estas legislativas, acrescentando apenas esperar "que ocorram em toda a paz". Sobre a recusa de vistos a vários órgãos de comunicação social portugueses, Cavaco declarou não dispor dessa informação e que, portanto, não poderia comentar as eventuais motivações das autoridades angolanas. Mas disse ainda que talvez mesmo que tivesse essas informações "não comentaria" a situação. Cavaco era primeiro-ministro durante as negociações que levaram aos Acordos de Paz de Bicesse entre o MPLA e a UNITA e que resultaram nas legislativas e presidenciais de 1992. Esse acto eleitoral, o único na história de Angola, nunca teve a prevista segunda volta.
LEONÍDIO PAULO FERREIRA, Em Varsóvia
Na primeira linha do último comício do MPLA
A paz não é uma palavra qualquer para Ana Evaristo. "O meu pai foi combatente do MPLA." Para esta enfermeira de 46 anos, é normal que "o país só possa ter melhorado" após o fim do conflito angolano em 2002.
Ana Evaristo reside no Hoji ya Henda, o bairro que acolheu o comício do partido rival, a UNTTA, a apenas dez quilómetros do local onde o MPLA montou a sua acção de massas para largas dezenas de milhar de pessoas.
Chegou cedo a Kikolo e estacionou a uma dezena de metros da tribuna da direcção do partido, local onde se sentam os ministros, os deputados, a mulher e as duas filhas do Presidente angolano. Dominam as cores vermelha, preta e amarela do MPLA nas t-shirts que garantem que o partido no poder "é o partido da paz".
Na segunda linha, mais alto do que Ana Evaristo, Manuel Domingos fez questão de partilhar a "curiosidade" de votar pela primeira vez. A "jogar" em casa, Cacuaco, município que acolheu o comício do MPLA, o estudante de 18 anos afirma que nasceu no partido e avisou que vai cobrar uma "Angola melhor".
José Eduardo dos Santos chegou, amplamente saudado pelos milhares que continuam a invadir a arena de Kikolo, mas que terão de se contentar em ver o seu líder a uma distância razoável. O MPLA não depende do "camarada presidente" para triunfar, garante Eugénio Cassongo, 51 anos. MPLA e o povo o MPLA", afirma este militante que acredita pertencer a um movimento "campeão" e que "promete mudar o país"
À hora da intervenção do presidente angolano e do MPLA, Ana Evaristo pode ver o "camarada presidente" ao vivo e a cores. E deles espera "boas notícias para o país", e "mudança", palavra-chave na mensagem do adversário UNITA, "sobretudo no saneamento, educação, habitação", que não chega a todos os lugares do país, sustenta..- H. B.