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O Príncipe Perfeito |
O único motivo que poderia levar José Eduardo dos Santos a sujeitar-se ao escrutínio popular e a todas as coisas mesquinhas e desagradáveis que, para alguém como ele, tal processo implica, seria conseguir o respeito da comunidade internacional


Ana Gomes (foto Net)
Devíamos, talvez, começar por aqui. O único motivo que poderia levar
José Eduardo dos Santos a sujeitar-se ao escrutínio popular, e a todas as coisas
mesquinhas e desagradáveis que, para alguém como ele, tal processo implica, incluindo
discursos em comícios, banhos de multidão e entrevistas, seria conseguir o respeito da
comunidade internacional. José Eduardo dos Santos está um pouco na situação do
escritor brasileiro Paulo Coelho, o qual depois de conquistar milhões de leitores, depois
de enriquecer, ambiciona agora ser levado a sério como escritor. Quer o respeito dos
críticos.
A diferença é que José Eduardo dos Santos, não tendo o respeito da comunidade
internacional, começa a beneficiar do temor desta - o que para um político pode ser algo
bastante semelhante.
O crescimento económico de Angola, por pouco que seja, e ainda que afectado por
distorções de todo o tipo, representa uma garantia de bons negócios para um vasto grupo
de empresas multinacionais. A prosperidade de Angola é uma boa notícia também para os
jovens quadros portugueses no desemprego. Favorece, aliás, todo o tipo de sectores.
Lembro-me de ter lido há poucas semanas uma notícia segundo a qual dezasseis por cento
dos produtos de luxo vendidos em Portugal são adquiridos por cidadãos angolanos.
Há uns dois anos almocei num simpático restaurante da Ilha de Luanda com um diplomata
português. Antes de chegarmos à sobremesa já ele me dava conselhos: "Você só tem
problemas porque fala de mais", assegurou-me. "Escreva os seus romances mas não
ataque o regime. Não há necessidade." Depois disso tenho escutado conselhos
semelhante vindos de editores, empresários e políticos portugueses.
"Já não posso ouvir o José Eduardo Agualusa e todos os outros portugueses e
angolanos cá em Portugal que não se cansam de denunciar os desmandos e a corrupção do
governo angolano", escreveu Miguel Esteves Cardoso numa extraordinária crónica,
publicada nas páginas do jornal "Público" a 30 de Outubro de 2009, e depois
reproduzida no "Jornal de Angola": "Angola é um país soberano; mais
independente do que nós. [...] Os regimes políticos dos países mais nossos amigos são
como os casamentos dos nossos maiores amigos: não se deve falar deles. [...] Não são
só nossos amigos: são superiores a nós."
No meu último romance, "Barroco Tropical", esforcei-me por expor a forma como,
em regimes totalitários, o medo vai pouco a pouco corrompendo as pessoas, mesmo as
melhores. O medo é uma doença contagiosa capaz de destruir toda uma sociedade.
Mais extraordinário é perceber como um regime totalitário consegue exportar o medo.
Não já o medo de ir para a cadeia, é claro; ou o medo de ser assassinado na via
pública durante um suposto assalto. Trata-se agora do medo de perder um bom negócio. Do
medo de ofender um cliente importante.
Ver dirigentes políticos portugueses, de vários quadrantes ideológicos, a defenderem
certas posições do regime angolano com a veemência de jovens aspirantes ao Comité
Central do MPLA seria apenas ridículo, não fosse trágico.
Alguns deles, curiosamente, são os mesmos que ainda há poucos anos iam fazer piqueniques
a essa espécie de alegre Disneylândia edificada pela UNITA no Sudeste de Angola, a
Jamba, vestidos à Coronel Tapioca, e que apareciam em toda a parte a anunciar Jonas
Savimbi como o libertador de Angola.
José Eduardo dos Santos decidiu fazer-se eleger pelo parlamento, por mais cinco anos, por
mais dez anos, troçando da democracia, por uma razão muito simples: porque pode. Porque
já nem sequer precisa de fingir que acredita nas virtudes do sistema democrático.
Enquanto Angola der dinheiro a ganhar, aos de fora e aos de dentro, e mais aos de fora que
aos de dentro, como sempre aconteceu, ninguém o incomodará. Para isso, para que Angola
continue a dar dinheiro, exige-se alguma estabilidade social, sim, mas não democracia.
Democracia é um luxo.
Bem pode Ana Gomes manifestar a sua indignação. Mais facilmente os dirigentes do partido
que representa a admoestarão a ela, por ter tomado tal posição, do que incomodarão os
camaradas angolanos.
Aos angolanos resta a esperança de que o crescimento económico possa contribuir para a
formação e o regresso de jovens quadros. Estes, juntamente com uma mão-cheia de
jornalistas independentes, de activistas cívicos, de militantes de pequenos partidos,
todos juntos, talvez consigam criar um amplo movimento social capaz, a médio prazo, de
vencer o medo e de transformar Angola numa verdadeira democracia.