I Hoje
portugalLuanda. Insegurança não assusta portugueses
por Gonçalo Venâncio e Filipe Paiva Cardoso, Publicado em 11 de Janeiro de 2010
Ataques em Cabinda não se devem repetir no país. Portugueses falam de relativa segurança na capital
Fazer investimentos no continente africano pode
ser arriscado. E não apenas do ponto de vista do negócio: a violência armada entre
grupos rivais na República Democrática do Congo desaconselha visitas e a instabilidade
política na Libéria pode inibir até o investidor mais aventureiro.
Desde o fim da guerra civil, há oito anos, que Angola pôs estes e muitos dos outros
problemas que martirizam os seu vizinhos para trás das costas. Actor regional de primeira
grandeza e uma das mais promissoras nações do continente, Angola vive insuflada de
orgulho pela organização da Taça das Nações Africanas em futebol.
No entanto, Luanda voltou por estes dias a ocupar o topo da agenda noticiosa mundial.
Infelizmente para o regime de José Eduardo dos Santos pelos piores motivos.
"Condenamos este acto de terrorismo, mas a competição prosseguirá em
Cabinda", disse ontem o presidente angolano na cerimónia de abertura da CAN.
Mas até que ponto as acções da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) podem ter exposto os problemas de segurança no país? "A violência armada de raiz política é hoje exclusiva de Cabinda e não creio que a FLEC ou quem a provoca tenha capacidade de a repetir noutras partes do território", explica ao i Jaime Nogueira Pinto. Especialista em assuntos africanos, Nogueira Pinto conta que viajou milhares de quilómetros por estrada, de norte a sul do país, e que em todas as províncias se circula com "toda a segurança."
Tirando Cabinda, salienta Nogueira Pinto, desde o Acordo de Paz entre o
governo angolano e a UNITA (em Abril de 2002) que "não se verificam actos de
violência no território angolano." No entanto, há obstáculos à produção de
segurança que o professor universitário identifica, sobretudo na capital: "Os
problemas de Angola são os de uma sociedade que enfrentou uma longa guerra civil, que
está numa fase de reconstrução económica e social que gera grandes expectavas e
também desigualdades funcionais, com graves problemas de recursos humanos e emprego. O
grande problema é e vai continuar a ser Luanda."
Aprender a regatear É precisamente na capital angolana que todos os meses aterram
milhares de portugueses. Dados do INE de 2009 estimam que haja 100 mil portugueses a viver
em Angola e a grande maioria deles na capital. Para esses, os avisos aos turistas no site
do Departamento de Estado norte--americano não são surpresa: roubo por esticão,
carjacking, extorsão e roubos à mão armada são os crimes mais frequentes que envolvem
estrangeiros. Lê-se ainda que "os polícias e os militares são indisciplinados, mas
a sua autoridade não deve ser questionada." Será?
Um português que trabalha na área do Marketing em Luanda, conta ao i que
"dia sim, dia sim" era mandado parar no caótico trânsito de Luanda. Por
qualquer motivo ou, melhor, por motivo nenhum. "Qualquer situação servia para nos
passarem multas e pedirem dinheiro. No início dávamos, mas depois começámos a discutir
com eles e lá nos deixam ir sem pagar nada. Já percebem quem é novo em Luanda e quem
não é", diz, preferindo a condição de anonimato. "Mas até isso está melhor
agora. Há muito mais polícias nas ruas e confesso que o cenário que me pintaram à
partida era bem mais negro do que aquele que encontrei", prossegue.

A versão é corroborada por outra portuguesa, há mais de 20 anos a
viver em Luanda, e que trabalha para uma multinacional. "A polícia tem feito um
grande esforço de modernização e de recrutamento de gente nova. Mas, ainda assim, a
corrupção nas forças de segurança é um problema. Se tiverem oportunidade, vão sempre
aproveitar para antecipar o fim do mês" diz.
Não andar sozinho à noite nas ruas, não entrar no mercado de "Roque Santeiro"
ou no bairro "Rocha Pinto", evitar os arrumadores, não parar nos semáforos
durante a noite e ser sempre guiado por um motorista local são algumas das dicas dadas
aos portugueses que escolhem Angola para trabalhar, para evitar dores de cabeça Afinal de
contas, a criminalidade é um problema sério, mas também nisso a capital angolana não
é muito diferente de qualquer outra capital não europeia: "Em Luanda vou
tranquilamente a qualquer lado, sabendo claro por que caminhos vou. Mas isso é
exactamente o que acontece noutras capitais, não é?" questiona-se.
As questões de segurança parecem não ser, de um modo geral, uma das preocupações
prioritárias dos portugueses que vivem ou visitam Angola. Rui Amendoeira, sócio fundador
da Miranda Correia Amendoeira & Associados explica porquê: "Há outras
nacionalidades - americanos e ingleses - para quem estas questões têm uma importância
muito maior. Julgo que a comunhão da língua, a maior proximidade cultural e afectiva
entre portugueses e angolanos menoriza a percepção de insegurança." Para o
advogado que visita frequentemente o escritório da firma na capital angolana, "o
casco urbano de Luanda onde os estrangeiros se movimentam é seguro" e a maior parte
das províncias "são-no ainda mais."
Business as usual Mesmo não sendo uma preocupação, a segurança acaba por ter impacto
nos custos de operação das actividade económicas. "Por exemplo, é frequente que
as lojas e outros estabelecimentos de Luanda tenham segurança privada à porta", diz
Amendoeira. Nada que afaste os homens de negócios nacionais.
Portugal, retirando as compras de petróleo, é a maior fonte de capital de Angola, tendo
investido no país 694 mil milhões de euros desde 2007. Os exemplos falam por si.
A Unicer conseguiu, em Dezembro, autorização para avançar com um investimento de 100
milhões de euros e a CGD assinou o acordo para avançar com um banco de investimento no
país, em parceria com a Sonangol. António Prata, da agência angolana de investimento,
sintetizou ao "Financial Times" a relação entre os países:
"Amor--ódio". Mesmo com muitos zeros à mistura, as relações económicas
bilaterais entre Lisboa e Luanda estão muito longe do seu potencial, na opinião de Rui
Amendoeira: "Há uma grande margem de crescimento, à medida que a economia angolana
se vai expandindo."