
Tchizé compra bairro Katambor
Quinta, 01 Outubro 2009 01:45
Luanda
- Em Setembro de 2008 os angolanos tiveram direito a eleições legislativas livres para quem votasse pelo MPLA - não tanto assim se abertamente o votante anunciasse que ia votar num partido da oposição -, e nessa altura foram feitas promessas de melhorias em todos os aspectos da vida social. O Governo prometeu construir em 4 anos 1 milhão de casas e hoje já sabemos que a promessa se parecia como lágrima a uma gota de orvalho a uma isca com que se apanham os peixes. Tudo mentira. * William Tonet & Ankara SangalaContudo, o pesadelo da pré-potência dos nossos dirigentes continua a fazer estragos entre a população, como se o tempo não tivesse passado e os angolanos ainda estivessem na estaca zero.
O Governo está hoje empenhado numa política parecida com o negativo duma bonita fotografia, em vez de construir está a demolir. Em alguns casos sem se referir minimamente à lei por ele próprio lavrada.
Depois das exacções
cometidas na província de Benguela Lobito, Bairro do Compão, local da feira junto
ao cinema Flamingo - com a expropriação massiva de terrenos, demolições de
habitações, desalojamento e assento forçado de cidadãos sem qualquer referência à
lei nacional, nem tão-pouco às leis internacionais ratificadas pelo Estado angolano,
depois dos compulsivos despejos e demolições no Bairro do Iraque, com o caso a cheirar a
esturro quando as coisas se agravaram, como atempadamente noticiámos, a pontos de ter
chegado a uma rotura, com uma manifestação que se propunha clamar o desespero dos
desalojados em frente do palácio presidencial, depois dessas e outras, as coisas em vez
de melhorarem, pioraram, e nos tempos que correm deparamo-nos com a ameaça aparentemente
irreversível doutras expulsões, expropriações e atinentes demolições de casas, agora
no Bairro do Katambor e parte do Prenda.
Trata-se de um terreno muito extenso, que era pertença, no período colonial das firmas
Gomes & Irmãos e Cunha & Irmãos e que depois da Dipanda, foram confiscados pelo
Estado de Angola, como consta do acto na Conservatória do Registo Predial.
Terrenos desse tipo, como é sabido, com o advento da revolução e da política
socialista e de esquerda, então evocada e cantada aos quatro ventos pelo MPLA os seus
habitantes, o povo, que o refrão ideológico, catalogou de "heróico e
generoso", beneficiaram do usufruto, uns da terra então devoluta e outros das casas,
mas nunca tiveram direito de acesso ao título de propriedade.
Recebiam as chaves e ficavam sujeitos aos desideratos de quem viesse a governar o país.
Pois agora que se amolem, tudo indica que vão brevemente "apanhar corrida" para
dar azo à implementação de mais um novo projecto imobiliário. E, ao invés do que tem
vindo a acontecer em casos de expropriações para contento e realização de projectos do
Estado, mesmo assim polémicos, desta vez a jogada não é do Governo, e a emenda é
bastante pior que o soneto pois trata-se de um negócio privado.
Tchizé dos Santos, ou Welwitcha dos Santos Pego, deputada na Assembleia Nacional pelo
MPLA é apontada como se tendo engraçado com o terreno e, por intermédio de uma das suas
inúmeras empresas, terá comprado, toda a zona habitacional do Katambor.
Se fosse o Xico da Fonte Santa, era vai-te curar e desembrulha-te, mas como é a Tchizé
vai ser o "diabo", um caso sério para a impedir, caso tudo já esteja na sua
esfera jurídica, de levar avante o seu projecto de aí implantar uma nova zona nobre, com
vivendas e casas de luxo e poucos prédios com apartamentos duplex, para uma classe média
- alta.
Tchizé dos Santos, gostaríamos que aqui fosse sublinhado, tem direito inteiro e
incondicional à nossa simpatia, por razões várias, entre as quais por lhe
reconhecermos uma postura pouco vinculada a jogos de cintura. Essa é a nossa
opinião, motivada por algumas das suas intervenções públicas, nomeadamente as sua
tomadas de posição em relação à oligarquia angolana, as suas reticências em
relação à TV Zimbo, os seus apelos à tolerância em Angola e, é claro, o seu pedido
de suspensão do mandato de deputado depois de ter aceite, alegadamente com o acordo da
bancada do MPLA, integrar, em Junho passado, a comissão de gestão da TPA 1, o canal
público de televisão, a convite do ministro da Comunicação Social, Manuel Rabelais.
Coerente, afastou assim todas as críticas, a começar pelas de Luisa Rogério, que sobre
ela pesavam a propósito de cumulação de funções. Portanto, que não venham por aí
apregoar que estamos embebidos em ódio pelo poder, não, pelo contrário, temos todo o
respeito por muitos dos seus membros, segundo o que nos parece que eles merecem, mas o que
ele, o Governo, não merece, é ser afastado das suas responsabilidades por um silêncio
cúmplice e bajulador.
Isso não está nas nossas cordas, a guitarra aí é outra, certamente a de alguém que
algo quer obter como benesse do poder instituído!
Neste caso, estamos
perante um exemplo que constitui uma tremenda bofetada, para não dizer um "arraial
de porrada" com o devido desprezo à mistura, ao aforismo do "guia
imortal", Agostinho Neto, que dizia, mas só dizia, porque poder não podia, " O
importante é defender os problemas do povo". Tudo mentira!
E hoje, o que vemos é um Governo obcecado por lucros financeiros imediatos a intervir na
defesa do Capital e nos interesses dos seus apaniguados, familiares e amigos, entre os
quais alguns da "onça".
Um governo doente, assolado por um acesso de "gananciatite" aguda, sem cura, um
verdadeiro desastre para o mwangolé.
Assim sendo, porque o é, dentro de alguns dias, a exemplo do que aconteceu aos
autóctones do Bairro do Iraque, o Katambor será cercado por militares e polícias com
missão para retirarem dali, à força e sem qualquer indemnização digna desse nome, a
totalidade dos populares que ali vivem, alguns deles há mais de 30 anos! E com direitos
constitucionalmente adquiridos, mas que este Governo ao arrepio da Lei, principalmente do
Código Civil, não cura de reconhecer os direitos das populações e as trata, muitas
vezes piores que as autoridades coloniais portuguesas.
Eles não têm vergonha. Não resolvem nenhum problema do povo. Desprezam-no. Se toda
esta história não vier a superar a do Iraque e Bagdad, o melhor que as populações do
Katambor podem fazer é ir tentando arranjar soluções alternativas, pois nada aponta
para que haja o bom senso de virem ser indemnizados, pelo facto desta palavra não
fazer parte do dicionário dos novos ricos e dos filhos das elites, tão carentes, mas
tão sedentos do poder e dos cifrões de dólares, única razão da sua nova existência,
enquanto angolanos.
Fonte: Klub-K Angola